Leandro Konder
por José
Corrêa Leite*
Leandro Konder é, desde os anos 60, um
dos principais propagandistas do marxismo no Brasil. Filósofo, responsável
pela introdução entre nós da obra de Lukács, autor de duas dezenas
de livros, entre eles A derrota da dialética, Konder fala sobre
sua obra e a situação do pensamento socialista hoje, nesta entrevista
que contou com a participação e colaboração de Carlos Nelson
Coutinho.
Como você vê hoje a
situação do pensamento marxista como teoria revolucionária?
A primeira constatação,
melancólica, é a de que qualquer idéia que tenha um conteúdo
revolucionário enfrenta hoje uma resistência muito grande, uma oposição
difusa na sociedade e na cultura, um ambiente de muito ceticismo e desânimo.
Tenho conversado muito com jovens e é curioso e perturbador perceber o
quanto eles são pouco receptivos aos valores ligados à tradição do
pensamento revolucionário. Revolução não está com nada! Estamos
vivendo uma época na qual a perspectiva da revolução se tornou tênue,
mas tudo indica que futuramente a idéia de revolução voltará a
contar com algum conteúdo suficientemente forte para mexer com a cabeça
das pessoas. Não podemos nos basear nos critérios impostos pelas
circunstâncias de momento, no Brasil e no mundo.
É interessante que, de
todos os autores representativos do pensamento revolucionário, é Marx
quem demonstra a vitalidade mais constante, que atravessa épocas e
continua mexendo com as pessoas. Outros autores perdem influência, mas
Marx mantém a sua. Vejo nisso uma confirmação da idéia de que Marx
é o interlocutor fundamental que encontramos em nosso caminho toda vez
que retomamos a discussão sobre a transformação da sociedade na
perspectiva da revolução.
Não creio que temos saída
para essa situação no plano puramente teórico. O próprio Marx ensina
que existem problemas que não têm solução nesse plano. Dependemos de
um trabalho político, de arregimentação, mobilização e conscientização
dos setores majoritários da sociedade. Na medida que esse trabalho
produzir resultados, serão criadas condições mais favoráveis para
superarmos também os impasses teóricos que não estamos conseguindo
resolver.
Quais são esses
impasses teóricos?
Tendemos a recorrer ao
velho arsenal, que tem sua força, mas tem seus limites. E esses limites
estão se mostrando maiores do que supúnhamos. Muita gente, diante
dessa constatação, deserta, eu diria. Se queremos continuar, não
podemos nos limitar a repropor os velhos conceitos. Temos, de alguma
forma, que dialogar com as matrizes de novos conceitos que ainda não
estão elaborados e participar desta elaboração. Há uma certa timidez
teórica da nossa parte, que está ligada às angústias do impasse. Mas
o impasse está na nossa incapacidade momentânea de superar os limites
da nossa aparelhagem conceitual. Não digo que devamos abandonar essa
aparelhagem, mas não podemos nos apoiar mais exclusivamente nela. E há
uma dificuldade visível para irmos além dela sem trair seu espírito,
que queremos manter vivo.
Há uma idéia,
proposta pelo Carlos Nelson Coutinho há alguns anos, da democracia como
valor universal, que teve um mérito histórico: ter colocado a
necessidade de aprofundarmos a discussão do que para nós é a
democracia. Acho que, por um lado, as pessoas fizeram uma leitura que
comprometia o aprofundamento desta reflexão, com critérios herdados de
uma tradição liberal. E, por outro, houve um recuo da nossa parte em
relação ao aprofundamento da discussão em torno de determinados
aspectos da questão democrática no mundo de hoje, como, por exemplo,
os relativos à mídia e aos mecanismos formadores e deformadores da
opinião pública, dificuldades ligadas às condições do funcionamento
da indústria cultural. E nós, de certa forma, só podemos defender com
maior credibilidade nossos valores na ação política se dominarmos
muito melhor os problemas que surgem com essa mudança cultural característica
do final do século XX. Tendemos a fazer análises que repetem formulações
da primeira metade do século.
Sem excluir a hipótese
de estarmos superestimando a cultura, acho que se impõe a nós o
reconhecimento de que ela se tornou um elemento extremamente complicador
da nossa análise política. A cultura se tornou um campo de batalha
muito diversificado, que nos propõe problemas que não estamos
conseguindo dominar suficientemente.
Essa insuficiência do
nosso arsenal talvez seja um dos fatores que precisam ser levados em
conta no certo êxito do pós-moderno. Ele ocupa um espaço que não
conseguimos preencher. Talvez haja alguma razoabilidade, não nas
propostas e na direção do pensamento dos representantes da perspectiva
pós-moderna, mas na sensibilidade com que percebem determinadas questões,
que eles muitas vezes resolvem mal, mas que ainda não chegamos a
enfrentar de forma adequada.
Alguns desses problemas
talvez sejam, em boa parte, pseudoproblemas ou problemas reais muito
desfocados. Mas tenho a impressão de que algumas das inquietações pós-modernas
são muito instigantes. E o pensamento marxista deveria ter mais audácia
na discussão dessas questões. Um sinal disto está no sucesso da obra
do Fredric Jameson, um marxista muito interessado e até bastante simpático
ao pós-modernismo. Acho sua obra muito irregular mas, quando me
defronto com alguns insights estimulantes deste autor, pergunto-me se não
estamos atrasados em relação ao que ele está fazendo. Acho que o fenômeno
Jameson é sintomático e precisa ser encarado mais seriamente.
No centro desse debate
está o problema do universal e da alteridade. Em que medida o marxismo
conseguiria hoje apresentar um projeto de transformação social e de
construção de outra civilização de caráter universal, incorporando
o conjunto das aspirações dos explorados e oprimidos? Os pós-modernos
fazem disso o alvo fundamental do seu ataque...
Sem dúvida, e sabem
onde batem. Eles nos agridem nos pontos em que somos mais sensíveis. É
muito difícil pressupormos hoje uma competência intrínseca para o
pensamento mais universal. Nosso desafio consiste justamente em
demonstrar essa capacidade para os outros e para nós mesmos. O desafio
da universalidade está colocado e tem que ser enfrentado em termos que
nos permitam mostrar que podemos incorporar a enorme riqueza da
diversidade. Trabalhar em condições realmente multiculturais. Na história
política do marxismo ocorreu uma diversificação que só foi possível
na medida que houve também uma certa abertura, teórica e política,
para o multiculturalismo. O marxismo teve influência em contextos
culturais muito diversos porque sabia assimilar alguma coisa desses
contextos. Mas isso não foi trabalhado no plano teórico de maneira
conseqüente. No plano mais ambicioso da teoria, o filosófico, ficou
faltando uma complementação até eventualmente corretiva desse
trabalho e desse pensamento políticos. Esse é, no plano filosófico,
nosso principal desafio. Na medida que consigamos enfrentar o desafio de
uma universalidade capaz de se abrir para o multiculturalismo, nos
capacitaremos também para encaminhar soluções para os problemas que
surgem no plano dos desdobramentos surpreendentes e perturbadores da indústria
cultural e da criação de meios de manipulação da opinião pública
por intermédio da mídia. Há uma ligação entre os dois desafios.
Mas temos, cada vez
mais, que trabalhar sobre o terreno que a recomposição do capitalismo
em bases neoliberais está criando e, portanto, em uma situação na
qual a referência de universalidade posta é a mercantil. A colocação
dessas referências positivas hoje em dia não pode ser apresentada como
um desdobramento natural das contradições da sociedade capitalista.
Sim, mas ao mesmo
tempo, toda vez que nos defrontamos com manifestações de insatisfação,
resistência e oposição à dinâmica contaminada com a mercantilização
generalizada, temos um combustível que reanima as nossas esperanças.
Isso mostra que essa globalização, para usar a palavra da moda, que
envolve com uma lógica mercantil toda a realidade social em quase todos
os países do mundo, não elimina manifestações de uma oposição que
brota das suas próprias contradições, mesmo que não as dominemos no
plano teórico. Mesmo que não tenhamos um instrumental adequado para
pensar essas contradições, elas existem e estão se manifestando.
Revoltas éticas são
sempre sintomáticas. Elas estão sempre dentro dos limites do
capitalismo e nem por isso deixam de aparecer e proliferar à nossa
volta. Nesse sentido, nossa solidão, que é dolorosa, não é
desesperadora. O que vemos em volta é uma vida que continua
fermentando, são possibilidades novas, energias despontando que nos
animam. Não vejo uma situação desanimadora.
Sua preocupação atual
com os pensadores do socialismo utópico está relacionada com a busca
de referências positivas para esses atores em revolta?
Essa revalorização da
utopia pode dar a idéia de um caminho que conduz a procedimentos utópicos,
do socialismo científico ao socialismo utópico. A tradução da utopia
diretamente em programa político é sempre problemática. O que existe
na utopia que precisa ser resgatado e que explica por que ela se
expressa literariamente com tanto vigor em alguns momentos é uma certa
radicalidade de insatisfação. Não estou satisfeito com o presente e
sonho com uma realidade que poderia ser imaginada no futuro ou numa
situação geograficamente distante ou em outro lugar pensável. Esse não-lugar
funciona como uma imagem que estimula a abertura do meu pensamento para
novas possibilidades. Amplio o espaço do possível, do pensável. O espírito
da utopia tem, neste sentido, uma função importante, sobretudo em
momentos como o atual, em que não temos condições para encaminhar
grandes ações transformadoras. Precisamos recuperar o fermento de
inquietação radical, para o qual a utopia traz a sua contribuição.
Em vez de esquecermos
os utopistas como expressões de uma perspectiva superada, de fantasias
ingênuas, dissipadas pela cientificidade e pelo rigor da perspectiva de
Marx, acho que podemos revisitar essa gente. Suas fantasias traziam
determinadas sugestões que foram abandonadas cedo demais. Quando, por
exemplo, Fourier – que não é propriamente um modelo de equilíbrio
psicológico ou de sensatez teórica – diz que a Revolução Francesa
não teve coragem de mexer na legislação sobre a família e que sem
modificá-la não conseguimos modificar a sociedade, ele faz uma sugestão
que Marx foi levado a deixar de lado. Mas hoje somos chamados a retomá-la.
A família mudou demais. E uma proposta política socialista autêntica,
revolucionária, não pode deixar também de enfrentar o desafio de
pensar qual será a função e que forma poderá assumir a família numa
sociedade futura. A releitura de Fourier pode ser feita hoje com um espírito
diferente daquele com que os contemporâneos de Marx a fizeram. Revisito
Fourier com esse espírito. Como revisitei Flora Tristán com a idéia
de que a situação da mulher no mundo mudou tanto que encontramos em
sua obra alguns estímulos para pensar a incorporação na nossa
proposta revolucionária de antigas preocupações das mulheres que
aderiram ao primeiro socialismo.
Temos hoje movimentos
sociais com expressão política que colocam questões como a relação
com o meio ambiente, os problemas da sexualidade, a crítica ao
eurocentrismo e ao etnocentrismo. O horizonte utópico está colocado
como um elemento de instigação permanente. Cada época tem as suas
utopias e hoje as aspirações utópicas presentes são mais ambiciosas
do que foram em qualquer outro momento da história. Isso coloca o
desafio de fazer com que essas aspirações possam enriquecer o projeto
de sociedade que apresentamos?
Tenho uma dúvida com
relação ao que você diz. A minha dúvida é se não devemos combinar
isso com uma certa atenção para a historicidade da utopia. A utopia
sendo uma tendência, uma expressão permanente, também é histórica.
E também varia muito não só nas formas, mas na intensidade e na sua
importância concreta.
Precisamos hoje de uma
valorização mais enfática do espírito da utopia em função da
gravidade da crise que nos foi imposta. Na medida que chegamos a essa
situação e percebemos que estamos acuados, o espírito da utopia é um
manancial no qual vamos beber. Mas, ao mesmo tempo, exatamente na hora
em que a utopia tem maior receptividade no nosso meio, precisamos ter o
cuidado para não traduzi-la diretamente num programa político.
Temos que encontrar na
liberdade de fantasia, que caracteriza o espírito da utopia, elementos
importantes para enfrentar esses desafios políticos que você
mencionou, sem nos basearmos num programa utópico. Não podemos propor
uma análise científica acabada dos problemas da sexualidade, da família,
do multiculturalismo, da globalização. Na verdade, precisaríamos
promover um avanço do conhecimento científico em todas essas áreas e
aí tentar uma síntese. Mas isso está além das nossas forças reais
no momento. Para poder chegar lá, temos que desenvolver um grande esforço,
que pode se beneficiar do resgate da audácia imaginativa dos utopistas
do passado.
Isso nos remete para a
política no sentido clássico de construção de vontades coletivas,
acumulação de forças, definição de estratégias. Sua obra tem
enfatizado mais a dimensão cultural, mas você também tem incursões
nesse terreno mais diretamente político. Por exemplo, um livro sobre o
fascismo...
Uma vez uma pessoa que
nos criticava – a mim e a Carlos Nelson – disse: "como eles
acham que tudo está ligado a tudo, eles falam sobre tudo. Quando falam
de crítica literária falam também de história, de filosofia". E
nós, fazendo um balanço das nossas preocupações, concluímos que
essa crítica era justa. Realmente achamos que tudo está ligado a tudo.
As coisas estão, então, ligadas também à política. E a ida à política
é uma espécie de conseqüência das próprias convicções filosóficas,
dos princípios que levantamos.
Na época, estava na
Alemanha, exilado, participando de um seminário sobre fascismo. Comecei
a juntar material, conversei com Max da Costa Santos, que era editor, e
ele propôs que eu fizesse um livrinho sobre fascismo, que era uma
maneira de, indiretamente, discutir a situação criada no Brasil com a
ditadura militar.
A crítica que
classificava a ditadura como fascista não tinha fundamentação filosófica
sólida, mas produzia um efeito político interessante, porque
mobilizava amplos setores da sociedade contra a ditadura. Minha idéia
era que o fascismo foi uma das expressões mais significativas, mas
nunca a única, de uma radicalização da perspectiva da
extrema-direita. O espírito do fascismo podia assumir formas
completamente diferentes daquelas que o fascismo clássico apresentou
com Hitler e Mussolini.
O fascismo era a
realização de um programa de eliminação dos espaços de
questionamento, da diversidade, das alternativas, das opções. O que eu
não discuti – coisa que hoje seria necessária – foi o fenômeno do
estreitamento das opções e das alternativas nos quadros de uma
democracia liberal, que está acontecendo sem necessidade de que a
direita recorra às formas clássicas do fascismo. O que temos hoje não
é fascismo, mas é algo profundamente doente, menos drástico na sua
aparência imediata, mas por isso mesmo talvez até mais sutil e
perigoso. Porque começa a contar com um certo consenso passivo, uma
certa aceitação, por parte de amplos setores, deste processo de
liquidação ou sufoco das liberdades. Uma reação contra esse processo
é mais difícil. Temos que mobilizar setores que se mostram surdos às
nossas denúncias, porque são seduzidos e iludidos pela aparência
imediata das instituições liberais.
Não é uma eliminação
pura e simples, ostensiva, do espaço das alternativas. É um
estreitamento muito sutil. No âmbito internacional dessa ação totalitária,
por intermédio da globalização, temos um estrangulamento de
determinadas realidades, que não deixam de existir e se expressam por
contradições ambíguas. Não são necessariamente formas de oposição
progressista ao processo de globalização. Muitas vezes são expressões
impregnadas de conservadorismo, que têm a ver com o passado e não com
o futuro. Expressões de um certo saudosismo, de uma sobrevivência nostálgica
de velhos valores. Mas, de qualquer maneira, compõem um quadro muito
tenso, que aparece, por exemplo, em conflitos religiosos e étnicos, nos
quais o conteúdo político é submetido a formas mais ou menos
arcaicas. É o que se vê, por exemplo, no crescimento do islamismo.
Esses movimentos expressam a reação contra essa globalização
conduzida por uma lógica totalitária. Embora não tenham conteúdo
progressista, legitimam-se pela oposição a algo que é um progresso
perverso, isto é, um pseudoprogresso.
Já que entramos no
tema do progresso, é bom lembrar que você foi um dos introdutores no
Brasil da obra de Walter Benjamin. Em que medida ela pode ser útil ao
pensamento socialista de hoje?
Uma pessoa que me
ajudou a compreender a riqueza da obra de Benjamin foi o Michael Löwy.
Quando conversávamos sobre a extraordinária qualidade da obra crítica
do Benjamin, ele disse: "Leandro, o revisionismo dele é
fascinante". Hoje um revisionismo é, muitas vezes, a única
maneira de resgatar o espírito revolucionário radical de Marx contra a
dissolução da sua perspectiva num código reformista.
Cheguei à conclusão
de que Benjamin é um sujeito que vai buscar no terreno do inimigo
elementos que podem interessar ao nosso campo. Evidentemente submetidos
a um processo de readaptação para serem utilizados por uma perspectiva
revolucionária. Estou convencido de que Benjamin possui uma paixão
revolucionária. Ele pensa a história como redenção. Embora
elaborados em níveis diferentes, os conceitos de redenção e de revolução
se contaminam mutuamente. A redenção revitaliza e fortalece a idéia
de revolução numa época em que o espírito revolucionário já estava
sofrendo a ação emoliente de uma série de procedimentos reformistas.
Benjamin é um sujeito que viveu angústias, em 1930, que antecipam as
nossas angústias em 1990. Por isso escrevi um livro sobre ele, como uma
maneira de divulgar melhor sua obra.
Eu me concebo muito
como um divulgador, não pretendo ser candidato a grande pensador. Sou
um trabalhador que, na esfera da cultura, tem compromisso com alguns
valores filosóficos e políticos. Meu trabalho é interpretar idéias
de pensadores que respeito e que acho que nos ajudam a travar a luta
hoje necessária.
Benjamin foi
seguramente um dos baluartes da luta contra uma leitura simplificadora,
determinista, da concepção materialista da história, um revalorizador
da iniciativa do sujeito revolucionário. Quando Benjamin diz que é
preciso escovar a história a contrapelo, ele nos dá uma dica
maravilhosa. Ele nos ajuda a pensar na grandeza e na importância do
desafio de nos mobilizarmos, inteiros e apaixonados, na oposição a uma
história que está sendo feita pelos outros. Vejo nisso um ponto de
convergência entre espíritos tão diferentes como Gramsci e Benjamin.
Entre os autores aos
quais você já dedicou sua atenção está justamente um contemporâneo
de Benjamin: Brecht. O que chamou sua atenção para ele?
Poderíamos dizer,
muito esquematicamente, que três grandes pensadores marxistas do século
XX pensaram sobre a arte: Lukács, Adorno e Benjamin. Nas suas concepções
sobre estética, eles sentiram necessidade de encontrar um autor que
seria a expressão prática, criadora, nas artes, do que eles pensavam
no plano da teoria estética. Lukács identifica em Thomas Mann a tradução
mais bem-sucedida da linha que teoriza. Adorno se volta para a rebeldia
radical de Beckett, como aquele que corporifica aquilo que ele teoriza.
E Benjamin vê na obra de Brecht a ilustração daquilo que preconiza no
plano teórico.
Depois de ter lido
Benjamin, voltei a Brecht e fiz uma descoberta que me emocionou muito:
Brecht, que é um autor muito importante e valorizado como homem de
teatro, é muito pouco explorado como poeta. Eu o tinha lido quando
estive na Alemanha aprendendo alemão, e tinha ficado muito
impressionado com a simplicidade da sua linguagem. Brecht é um poeta
que usa palavras cotidianas. Sua linguagem é simples, porém sutil.
Descobri que é muito difícil traduzi-lo. As traduções francesas são
fiéis, razoáveis, mas não têm o charme do original. As traduções
inglesas menos ainda. E as portuguesas me pareceram, salvo algumas
poucas exceções, bastante problemáticas. Fiquei impressionado com
isso. Não sou um tradutor suficientemente competente nem disposto a
essa tarefa de gigante. Mas fiz um livrinho divulgando a poesia do
Brecht, parte desse projeto de dizer: "gente, a cultura socialista
tem expressões artísticas maravilhosas".
Parece ser uma marca de
toda a sua trajetória o esforço no sentido de colaborar para a
constituição de uma cultura socialista no Brasil. Isso foi uma
preocupação consciente?
Esta é a linha de
abordagem do meu trabalho pelo José Paulo Neto. Ele chamou a atenção
e eu até me surpreendi porque não tinha pensado nisso. É verdade,
isso conta muito para mim. Se posso fazer algo pela formação e pelo
enriquecimento dessa cultura socialista brasileira, isso me motiva
muito. Sinto-me espontaneamente envolvido, quero participar. Isto é
existencialmente vital para mim.
Na sua tese de
doutorado, A derrota da dialética, você fez um vasto levantamento do
que era o marxismo acessível aos brasileiros até a década de 30 e
constatou que ele era quase inexistente. É um livro importante
sobre as primeiras raízes do marxismo no Brasil. O que o levou a
escrevê-lo?
Eu praticamente nasci
no meio de comunistas. Meu pai era comunista e minha casa vivia povoada
de comunistas. De certa forma, a minha visão de criança e, sobretudo,
de adolescente era a de um conjunto de pessoas que tinha uma inspiração
generosa, mas que eu achava um pouco insensata. Em alguns casos eu diria
mesmo bizarra. Eu queria entender melhor qual era a motivação daquelas
pessoas, de onde vinham aquelas idéias. Eu vi meu pai ser preso muitas
vezes, acho que ele foi preso umas vinte vezes. Eu ficava muito
impressionado com aquilo tudo. Que gente era aquela? Tinha certeza de
que não eram pessoas "do mal". Ao mesmo tempo, percebia que
tinham uma estranha forma de religiosidade, que tinham uma abertura de
cabeça insuficiente diante da vida. Comecei a me interessar muito por
essa doutrina de que eles se alimentavam. E comecei a pesquisar.
Depois de 1964, com a
derrota da esquerda e o golpe militar, consegui interlocução com um
grupo de pessoas das quais a mais freqüente está presente aqui, o
Carlos Nelson. Em função do diálogo com esses amigos, comecei a me
preocupar em estudar de maneira mais sistemática a história do uso das
idéias que vêm de Marx. Lendo Marx eu ficava fascinado pela idéia de
que o que Marx escrevia era diferente daquilo que os marxistas
aplicavam. Daí vem esse estudo do uso das idéias. Na Alemanha aprendi
essa coisa da recepção, há vários estudos sobre como as idéias
chegam. Queria estudar a recepção das idéias de Marx no Brasil até
1930, pois depois a coisa se complica muito. E aí fiz a tese de
doutorado.
Minha conclusão, mais
ou menos provisória e bastante limitada, era política. Minha idéia
era que o balanço dessa experiência mostrava que o trabalho teórico
tinha sido muito insuficiente. A idéia que tinha quando concluí o
livro é que eu precisava de alguma forma me empenhar num trabalho teórico
coletivo, mais ambicioso, que dependia de uma ampliação do número de
pessoas interessadas em pensar a sociedade brasileira de um ponto de
vista crítico, de esquerda e, em última análise, revolucionário.
Marx tinha um arsenal maravilhoso que tinha sido subutilizado e
precisava ser melhor aproveitado por intermédio de uma mobilização
das pessoas, promovendo uma discussão teórica que também se
desdobrasse numa divulgação de informações, de textos, de
conhecimentos.
A derrota da dialética
é um texto em que as conclusões são pessimistas. Ou seja, até aquele
momento Marx no Brasil tinha sido apropriado de uma maneira pobre,
esquemática, equivocada. A partir dos anos 30 você diria que a recepção
do marxismo tornou-se mais sofisticada?
Há algumas razões
animadoras, com a criação de possibilidades que não existiam, sem dúvida.
O aproveitamento dessas possibilidades é que é discutível. Mas, o
quadro das possibilidades, sem dúvida, melhorou.
A conclusão
pessimista, sugerida no título do livro, representou uma postura
provocadora deliberada. E que teve conseqüências muito curiosas. Por
exemplo, o falecido José Milton Tavares me procurou para conversar
sobre o assunto e achou que o título era inconveniente, muito drástico.
Aconteceu, então, uma coisa curiosa. Ele fez uma resenha muito simpática,
muito elogiosa ao livro na Senhor, na qual falava o tempo todo do livro
como A reforma da dialética. Na cabeça dele era "trabalho histórico
da maior importância, a reforma da dialética". E tem o caso do
Luiz Carlos Prestes, que deu uma entrevista ao jornal da PUC, em que
fala da situação do marxismo no Brasil: "é uma situação muito
ruim porque mesmo pessoas como o Leandro Konder, que estudou na
Alemanha, adotam uma posição que não é materialista dialética e que
resulta em análises deformadas, defeituosas, deficientes da realidade
brasileira, como se nota no seu livro A morte da dialética"! Quer
dizer, na cabeça do Prestes a dialética não pode sofrer uma derrota;
se sofrer ela morre!
Mas já nos anos 30
surgem as primeiras obras historiográficas do Caio Prado Jr., que são
um avanço indiscutível em relação ao Octávio Brandão, por exemplo,
também criticado por você em A derrota da dialética.
Sem dúvida. Mas se
houve avanços consideráveis, tivemos ao mesmo tempo o reaparecimento
de algumas tendências não-dialéticas muito presentes no pensamento
marxista brasileiro. Nos anos 30 aparece Leôncio Basbaum, que ganhará
destaque depois com um livro mais ambicioso, a História sincera da República.
Basbaum é um historiador que tem seus méritos, mas não é dialético.
A obra dele tem essa marca. De certa forma, ela é expressão do
reaparecimento de um pensamento marxista não-dialético. Esse é um
exemplo entre muitos. Caio Prado, filósofo, é um não-dialético
convicto. Tem uma concepção de dialética não-dialética. Os exemplos
podem se multiplicar com a maior facilidade.
Apesar da obra de
alguns marxistas a partir dos anos 40, há uma defasagem grande do que
era o pensamento marxista no Brasil em relação ao debate internacional
de ponta, que só começa a ser superada nos anos 60. A sua intervenção
e a do Carlos Nelson têm um papel importante para alterar este quadro,
introduzindo figuras como Lukács e Gramsci, porque é impossível
pensar o marxismo no século XX sem eles. O que o levou a difundir Lukács
no Brasil?
Somos expressão de um
movimento no qual uma opção comunista era feita em condições nas
quais não dava mais para se contentar com as razões de um período
anterior, dos anos 50. O XX Congresso revelou uma realidade já
conhecida por marxistas marginalizados, como os trotskistas. Eu procurei
trotskistas históricos para entrevistar na pesquisa sobre A derrota da
dialética – Mário Pedrosa, Edmundo Muniz –, e inicialmente em
alguns deles eu notava um certo retraimento. Eu era filho do Valério
Konder, um bolchevique staliniano convicto! Mas descobri, por intermédio
deles, todo um bolsão de resistência, embora com limitações teóricas
muito grandes. Mas, ao mesmo tempo, com uma certa intuição de que a
realidade da União Soviética era muito mais problemática do que o
comunismo oficial reconhecia. Isso, de certa forma, se generalizou em
algumas áreas do Partidão, sobretudo nos jovens aderentes, que diziam
"eu não quero repetir as bobagens que meus pais ou meus avós
disseram". Buscávamos, de alguma forma, novos caminhos. E aí
aparece Lukács, um crítico literário, com vasta cultura, sólidos
conhecimentos, respeitabilidade, interlocutor polêmico mas competente
dos outros filósofos. Havia nele uma consistência teórica que nos
impressionou muito. O Carlos Nelson, antes de mim, descobriu Gramsci e
ficou muito entusiasmado com a aventura de ler e pensar os temas
propostos por ele. Lukács e Gramsci tinham uma legitimidade derivada do
fato de terem sido comunistas militantes. Não eram marxistas de
gabinete, não eram professores. Eram revolucionários. E isso nos
inspirava respeito. E, ao mesmo tempo, tinham um pensamento próprio e
desenvolviam uma reflexão teórica diferente daquela que cabia nos
manuais proveniente da matriz moscovita. Para nós isso era ótimo. Nós
descobrimos o Partido Comunista Italiano e ele era a nossa reserva de
munição. Nós aprendemos italiano para isso.
A partir daí vocês
iniciam a divulgação da obra de Lukács e, depois, de Gramsci?
É. O Partido Comunista
tinha uma revista teórica chamada Estudos Sociais, que tinha como
diretor a veneranda figura do Astrojildo Pereira e um conselho de redação
do qual participavam Armênio Guedes, Jacob Gorender e Mário Alves.
Essa revista, já no primeiro número, definiu um programa curioso
redigido pelo Armênio. Dizia que era uma revista de tendência
marxista, mas que podia ser veículo de divulgação de alguns textos não
muito ortodoxos. Essa revista publicou Lukács, a princípio fazendo um
contraponto com um texto que o criticava. Depois, publicou outros dois
textos do Lukács. O Carlos Nelson mandou também, da Bahia, um artigo
muito interessante e simpático a Sartre. Saiu na revista, mas na seção
"Problemas em debate". Foi um sinal de que era possível,
dentro do espaço do partido, fazer o trabalho que queríamos fazer, de
difusão de novas idéias.
Mas só no plano da política
cultural...
É verdade. Conseguimos
exercer uma influência no plano específico da política cultural. Na
política geral do partido não exercemos influência nenhuma. Ficamos
marginalizados, mas numa situação na qual tínhamos a ilusão de ter
uma certa participação, porque influíamos na política cultural.
Esse processo permanece
por todo o período da ditadura?
Permanece, mas já em
outro contexto. Tínhamos, nesse período, uma organização do Partido
chamada Comitê Cultural do Rio de Janeiro. Freqüentávamos suas reuniões
e contávamos com a cumplicidade e a simpatia de várias pessoas. O
Comitê desempenhava um certo papel no plano da política cultural,
praticamente nenhum no plano da política geral. A direção se mantinha
protegida contra influências provenientes da área dos produtores e
divulgadores de cultura.
Até quando você
permaneceu no Partido Comunista?
Até começo de 1982.
Na verdade, até final de 1981, mas eu prolonguei a minha permanência
em função de um episódio meio pitoresco: em 1982 estava programada
uma comemoração dos 60 anos do partido. O Carlos Nelson já tinha se
afastado e havia a idéia de alguém falar representando os
intelectuais. O Zé Paulo pelos intelectuais de São Paulo e eu pelos
intelectuais do Rio. E fiz uma fala que foi um pouco a minha despedida.
Uma fala benjaminiana. Terminava com aquela frase do Benjamin:
"diante da situação, diante dos obstáculos colocados no nosso
caminho, temos que ser pessimistas. E temos que lembrar que a esperança
só nos é dada em função da existência daqueles que sequer têm mais
a possibilidade de ter esperança". Acabei de falar e criou-se um
clima constrangedor. Um rapaz, o Guto, que estava presente e queria
entrar para o partido, depois falou: "foi bom porque eu não
entrei. Depois da sua fala, fui embora e falei ‘melhor buscar outro
caminho’".
Em 1982 o PT já estava
se estruturando em todo o país. Qual era a sua visão dele?
Minha primeira leitura
foi muito crítica, na qual eu via apenas o obreirismo. Dizia: "é
uma ilusão, não tem teoria. É uma coisa meio sectária, simplista,
corporativa, obreirista". Diga-se de passagem, o Caros Nelson teve
desde o início maior abertura. Eu resisti bastante. Achava que era uma
iniciativa que repetia alguns dos erros da história do PC dos quais nós
queríamos nos desembaraçar. Custei bastante a ver que havia um outro
lado do PT, que era o novo, surgindo com características pós-leninistas.
Porque nós fizemos uma releitura do acervo leniniano, que resgatava
alguns elementos desse acervo numa nova proposta, que não seria pelo
caminho do PT. E, na verdade, uma das vantagens do PT era ter nascido
numa era pós-leniniana. Mas isso demorou um pouco a ser percebido por
mim.
Li uma vez uma
entrevista de George Dumezil, um estudioso que tinha uma cátedra de
mitologias comparadas na França. Era uma figura muito curiosa, um
erudito. Uma vez, no fim da vida, uma jornalista lhe perguntou o que
tinha mudado na relação dele com os alunos, depois de mais de cem
livros publicados. Ele disse: "antigamente, quando um aluno me
procurava com idéias excêntricas, esdrúxulas, eu falava: ‘meu
filho, amadurece seu pensamento, organiza melhor as suas idéias e
depois volta a me procurar’. E agora, quando o aluno me procura com idéias
excêntricas, esdrúxulas, eu digo: ‘vai fundo, vai fundo!’"
Porque as idéias
nascem como os seres humanos, mirradinhas, e só depois se desenvolvem e
aí a gente pode saber em que deu aquela criatura. Tem que esperar que
elas amadureçam. De certa forma, o PT, ao nascer, me pareceu uma
criaturinha bizarra, meia sem futuro, mas depois fui obrigado a
reconhecer que aquela criatura cresceu, ganhou uma desenvoltura muito
grande e começou a me ensinar algumas coisas que ajudavam a corrigir a
minha ótica de velho militante do Partidão.
Você acha que o
desenvolvimento do PT a partir dos anos 80 altera o panorama do
pensamento socialista no Brasil?
Eu acho que sim. O PT
criou uma situação nova que teve reflexo na discussão e na reflexão.
Sua existência é já um fato extremamente enriquecedor para o
pensamento da esquerda. Ele passou a ser uma referência que permite
pensar certas coisas que não eram pensáveis antes. No sentido, por
exemplo, da proposta do Carlos Nelson, da democracia como valor
universal, pensar um processo de mobilização ampliada democratizadora
dos diferentes setores da massa trabalhadora. De certa forma, nós nos
libertamos de determinados esquemas tradicionais das análises, digamos,
"sociológicas", da esquerda tradicional. Porque começamos a
aceitar a idéia de uma heterogeneidade das camadas trabalhadoras que
exige que aproveitemos formas de organização diferentes, que sejamos
capazes de nos inserir na diversidade dessas formas de organização. Nós
ainda estamos numa situação de déficit em relação ao esclarecimento
do nosso acervo teórico, do nosso instrumental conceitual. Essa
fundamentação precisa ser desenvolvida, fortalecida, inclusive com
seus desdobramentos no plano da política cultural.
*José Corrêa Leite
é membro do Conselho de Redação de TD
|